Quando os visitantes chegam à Casa
Curumim, ela aparece para receber o grupo. Caminha devagar pelo quintal, abre
um sorriso largo e acolhe cada pessoa com a familiaridade de quem transforma
visita em encontro.
Antes mesmo da música começar, vem o
convite: "Vou buscar uma saia. Hoje vocês vão dançar com a gente”. Poucos
minutos depois, o som das caixas toma conta do terreiro. Os cantadores puxam os
primeiros versos da Dança do Caroço e a roda se forma naturalmente.
Não existe uma linha que separa quem
mora na comunidade de quem veio conhecer o lugar. Aos poucos, todos acompanham
o ritmo, repetem os passos e deixam a curiosidade dar lugar ao encantamento.
Antes da dança terminar, o aroma do
bolo de puba preparado no forno a lenha já anuncia outra tradição da
comunidade. A cena acontece em Itaperinha, comunidade quilombola de Tutóia que
guarda parte importante da história do município e onde a cultura continua
sendo vivida todos os dias. É ali que termina o Circuito Raízes, Rios e
Tradições.
O roteiro foi estruturado para que
agricultores familiares, empreendedores, artesãos, mestres da cultura popular e
comunidades tradicionais passassem a integrar uma experiência turística
organizada, ampliando as possibilidades de geração de renda sem abrir mão da
identidade cultural.
Nesse processo, o Sebrae Maranhão
participou da construção do circuito por meio do programa Cidade Empreendedora,
com consultorias especializadas em turismo, e do programa Agente de Roteiros
Turísticos, responsável pelo mapeamento do percurso e pela qualificação dos
empreendedores envolvidos.
"O nosso objetivo é fortalecer
os empreendedores locais e valorizar aquilo que o território já tem de mais
importante: sua cultura, sua história e seus atrativos naturais. A partir das
capacitações e do acompanhamento técnico, os moradores passam a enxergar novas
oportunidades de geração de renda dentro da própria comunidade", explica
Ramon Ferreira, analista da Unidade Regional dos Lençóis-Delta.
A
acolhida em Itaperinha é o ponto alto da experiência. Mas ela começa muito
antes, em um percurso que revela, pouco a pouco, as diferentes camadas da
identidade tutoiense.
O
percurso que revela a velha Tutóia
A primeira parada leva os visitantes
a Tutóia Velha, antiga sede do município. No alto da comunidade, a Igreja de
Nossa Senhora da Conceição atravessa quase três séculos como testemunha da
formação da cidade. Construída durante as missões jesuíticas, ela preserva
parte da memória do povoamento da região e marca o início de um percurso que
convida o visitante a conhecer as diferentes identidades que formam Tutóia.
Da história preservada nas paredes
da igreja, o caminho segue para outra forma de patrimônio: as pessoas. No Sítio
Taboquinha, o senhor Chagas espera os visitantes acompanhado da esposa e seis
filhos.
Enquanto caminha entre as
plantações, ele apresenta cada cultivo com orgulho. Mostra os pés de maracujá,
as melancias, a mandioca, o caju e outras culturas cultivadas na propriedade.
Pelo caminho, também explica o funcionamento do meliponário e compartilha um
pouco da rotina de trabalho que sustenta a família.
Quando todos se acomodam, a mesa já
está posta. Frutas colhidas na propriedade, mel produzido ali mesmo e alimentos
preparados pela família compõem um lanche simples, mas cheio de significado.
Tudo o que chega à mesa nasce do trabalho desenvolvido no sítio.
Ao abrir a propriedade para o
turismo, a família encontrou uma nova possibilidade de renda sem precisar mudar
sua essência.
"A gente está se preparando
para receber bem os visitantes, mostrando o que a gente produz aqui, oferecendo
nossas frutas, o mel, compartilhando um pouco da nossa rotina e, ao mesmo
tempo, conseguindo uma renda a mais para ajudar a família. É uma oportunidade
muito boa para nós que apareceu com o apoio do Sebrae e da Secretaria de
Turismo", afirma Chagas.
Entre uma comunidade e outra, o
roteiro revela um Cerrado de paisagens abertas, árvores de troncos retorcidos e
rios de águas transparentes.
As paradas para banho convidam os
visitantes a diminuir o ritmo da viagem. O silêncio é interrompido apenas pelo
som da água corrente e das conversas que seguem sem pressa. É nesse cenário que
o visitante compreende por que a região é conhecida como um dos berços das
águas brasileiras.
Ao chegar na comunidade quilombola
de Itaperinha, a Casa Curumim recebe os visitantes como um lugar de encontro e
de memória. Fotografias, objetos antigos, utensílios e registros ajudam a
contar a história da comunidade, preservando lembranças que atravessam gerações
e mantêm vivas as raízes quilombolas do território.
Para Douglas Barbosa, um dos
coordenadores da casa, cada visita representa uma oportunidade de compartilhar
essa herança cultural.
"Aqui é um espaço de
importância para a comunidade, um espaço que visa preservar as lembranças, as
memórias e a cultura do lugar. O que a gente faz aqui tem um pouco da dança, um
pouco da ancestralidade. Tudo isso, no mesmo lugar, oferece ao visitante um
pouco do que ele veio buscar".
É desse espaço que os visitantes
seguem para a apresentação da Dança do Caroço. Com simpatia, os moradores
convidam todos a participar da roda. Não demora para que crianças, jovens,
idosos e turistas compartilhem o mesmo compasso. A apresentação deixa de ser
espetáculo e se transforma em convivência.
Enquanto a música continua, o bolo
de puba servido ainda quente, preparado no forno a lenha, circula entre os
visitantes como mais um gesto de acolhimento.
Turismo
que gera oportunidades
As histórias de seu Chagas, de Dona
Bárbara e de tantas outras famílias são a essência do Circuito Raízes, Rios e
Tradições.
Quem segue o roteiro leva na
lembrança a imponência da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, o banho nos
rios, a mesa preparada pela família de seu Chagas e a acolhida da comunidade de
Itaperinha. Mas há uma lembrança que costuma permanecer por mais tempo. É o
jeito como as pessoas recebem quem chega.






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